Eu odeio e-Learning

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“Eu odeio e-Learning”
Essa é uma reclamação frequente entre funcionários de empresas que utilizam o e-Learning como ferramenta de capacitação e treinamento. Mas quais são as causas dessa insatisfação? De quem é a “culpa”?

É fato que alguns dos educandos não gostam ou não se sentem estimulados a realizar os treinamentos disponíveis na plataforma das empresas em que atuam. A questão é: por quê? O que esses cursos têm de tão desagradável?

Conversando com uma amiga que trabalha em um grande grupo empresarial de nossa cidade, ouvi recentemente a queixa que dá título a este post e, após uma breve conversa, consegui identificar alguns pontos interessantes. Veja algumas possíveis explicações para tanto descontentamento e como nós, profissionais de EaD, podemos contorná-los:

1. “O cliente sempre tem razão.”
Não sei quem foi que inventou essa máxima tão utilizada hoje em dia, mas preciso discordar daquilo que ela afirma. Não, o cliente nem sempre tem razão. Acredito que temos razão quando dispomos de fatos e de experiência. E, infelizmente, não são muitas as pessoas que contratam serviços na área de e-Learning que têm esse conhecimento. Muitas das vezes, o cliente não está familiarizado com o processo de produção de um treinamento em EaD e não entende (ou ignora) algumas premissas fundamentais para o sucesso do curso.
Por exemplo: ao fazer a compilação e a estruturação do conteúdo do treinamento, é fundamental utilizar o poder da síntese. Entretanto, muitos dos clientes não aceitam que seus textos sejam alterados, mesmo que seja para a melhoria do entendimento por parte de quem realmente precisa: o usuário. Esse problema ocorre em muitos casos quando, por medo de que a ideia não seja perfeitamente compreendida, o cliente solicita a repetição de trechos que já foram explicados com outras palavras ou, então, quando a pessoa responsável pela validação do conteúdo precisa ver no treinamento “a sua cara” e reescreve grandes trechos de texto, às vezes de forma prolixa e redundante.
Além de tornar o treinamento repetitivo e enfadonho, essa prática acaba resultando em cursos demasiadamente longos, o que nos leva ao segundo problema…

2. “Eu tenho muito a fazer. Não quero perder tempo com isso!”
Em muitos casos, os educandos são profissionais da área de vendas: representantes comerciais autônomos, pequenos empresários, vendedores e consultores comissionados, entre outros. Para essas pessoas, a ideia de que “tempo é dinheiro” é algo quase que materializado. Se precisam parar por uma ou duas horas para fazer um treinamento, elas não percebem esse tempo como um investimento no seu futuro profissional, mas sim como um prejuízo em suas vendas! São uma ou duas horas que poderiam virar dinheiro, em vez de um tempo desperdiçado.
Aqui entram também aqueles profissionais que tem acúmulo de funções ou metas dificílimas de serem atingidas e estão sempre correndo atrás da máquina. Para eles, que sequer conseguem cumprir as suas tarefas diárias, dedicar duas horas de seu tempo a um curso virtual é quase suicídio profissional…

3. “O curso não tem NADA a ver comigo!”
Aí o problema pode ser fruto de ambas as partes: cliente e designer instrucional, ao solicitar ou desenvolver um treinamento com base nos seus gostos pessoais. Ex.: “Eu adoro aquele desenho que meu filho assiste na televisão e também gosto de rosa e acho que unicórnios são uma ótima forma de representarmos os nossos funcionários.” ou “Eu quero algo mais na linha do site da Apple porque é clean e futurista.” – essa última é baseada em fatos reais, e surgiu durante um briefing que um colega de um estúdio fez para a criação de um site de casamento (!). Gostos pessoais só contariam se o usuário final fosse o cliente ou o designer! Aí, sim, o treinamento seria direcionado para o público-alvo, considerando suas peculiaridades e linguagem adequada.
Aliás, desconhecer ou ignorar o público-alvo do treinamento é algo que acontece com grande frequência, ora por falha do designer ao realizar o briefing, ora por parte do cliente, que passa informações incorretas sobre os educandos. Esse deslize tem um impacto muito negativo na percepção do usuário, que passa a generalizar os cursos de EaD como soluções distantes da sua realidade, que não vão acrescentar em nada à sua vida.

4. “Eu simplesmente não entendo.”
Às vezes, por falta de tempo, acúmulo de jobs ou puro desleixo ou despreparo profissional, o designer apenas “passa o olho” no material enviado, pensa em uma solução genérica ou superficial demais e, antes mesmo de avaliar as consequências e desdobramentos de seu insight, o propõe para o cliente que… aprova. Aí o quiproquó está feito e só vai ser percebido durante a execução do trabalho ou, pior: durante a realização do curso pelo usuário.
Quando detectado durante o desenvolvimento do curso, o designer enfrenta dificuldades para trabalhar o estilo literário aprovado, criar conexões entre os assuntos abordados ou mesmo para propor analogias, ilustrações e interações adequadas. Aí, duas opções são consideradas: rever a proposta, voltando à concepção do treinamento (e rezar para que o cliente aprove a nova solução apresentada), e recomeçar o curso do zero, ou tentar finalizar o projeto “do jeito que der”.
Se chegar ao ponto de o curso ser aprovado, mesmo ficando aquém do esperado, aí a falha na concepção acaba atingindo o usuário de maneira significativa: ele não entende o curso – que se tornou um Frankenstein -, não vê lógica na sua estrutura, linha visual, contexto ou linguagem.

Bem, citei alguns dos problemas que podem levar ao título desse texto, mas de nada adianta apenas falar sobre o que está errado sem propor soluções, não é? Por isso, levanto agora algumas ideias de como resolver a situação:

1. “O cliente sempre tem razão.”
É fato que é o cliente quem paga o nosso salário e, sem ele, seríamos nada. Mas uma das funções do designer instrucional é também defender o seu ponto de vista, que deve ser embasado em informações técnicas, experiência e conhecimento do seu trabalho. Como especialista em EaD, é mais do que uma obrigação deste profissional alertar o cliente sobre as consequências de se desenvolver um curso com muito texto ou de duração muito longa. Também é preciso explicar quais são as etapas do desenvolvimento de um treinamento e passar segurança quanto à sua capacidade profissional. É necessário que o cliente entregue o projeto nas mãos do designer, para que este crie a solução mais adequada para cada caso. Às vezes, fazer com que o cliente se coloque no lugar do usuário é uma boa forma de ter sucesso em situações como essa.

2. “Eu tenho muito a fazer. Não quero perder tempo com isso!”
Cursos de EaD devem ser vistos como uma forma de desenvolvimento pessoal e profissional, e não como empecilhos ao trabalho do educando. Salientar, no começo do treinamento, o que o usuário vai ganhar DE FATO ao realizá-lo é uma ótima maneira de despertar o seu interesse e garantir a sua atenção.
Outra forma de fazer isso é instigar os educandos por meio de ações complementares, como o envio de e-mail marketing e interações que ultrapassem o meio virtual, como gincanas, desafios, premiações e jogos em encontros presenciais.
Entretanto, se mesmo quando utilizados estes recursos o usuário não demonstrar interesse e continuar vendo o treinamento como uma “perda de tempo”, aí me arrisco a dizer que o problema não é o EaD, mas sim o educando, que pode estar se sentindo insatisfeito com o seu trabalho e não tem vontade de se dedicar ao crescimento profissional…

3. “O curso não tem NADA a ver comigo!”
Estudar a fundo o público-alvo é essencial para o desenvolvimento de um bom curso. O designer precisa fazer perguntas, pesquisar e conversar com o seu cliente (e, se possível, com o próprio educando) para extrair essas informações.
Outro ponto importante para reverter este problema é se colocar no lugar do usuário e levar em consideração sua bagagem cultural, seus valores e o que é importante para ele.

4. “Eu simplesmente não entendo.”
Por mais que, às vezes, os prazos sejam curtos, é importante dedicar um bom tempo à etapa de concepção do projeto. Avaliar os prós e contras da solução e pensar em seus desdobramentos durante a execução do treinamento não só é recomendado, como é obrigação de um bom designer. Afinal, design é projeto, e projeto também é planejamento.
Também é fundamental que o designer pergunte a si mesmo: eu entenderia o treinamento se fosse para mim? Lembre-se: um bom curso é construído para que qualquer pessoa entenda, independentemente de seu grau de instrução… Por isso, entender a fundo o conteúdo trabalhado no treinamento e abordá-lo em linguagem compatível à do educando é uma premissa básica para a criação de um curso eficaz.

Claro que, no EaD, nem tudo são rosas e sempre encontraremos usuários descontentes. Entretanto, estes devem ser a exceção, e não a regra. Se levarmos em consideração nem que sejam apenas algumas das dicas que listei aqui, com certeza podemos chegar mais perto de resultados cada vez mais satisfatórios para clientes, designers instrucionais e, o mais importante, para os usuários.

Por Jess Block

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